A invasão estrangeira
Procurei deixar bem claro até agora que atuar no Mercado exige prática e experiência, nada mais, e que também a Bolsa não deve ser encarada como hobby , ou como jogo eletrônico em que se exibe raciocínio rápido.
Bolsa, do ponto de vista do Investidor consciente, é um local onde se aplicam economias, dinheiro
poupado com sacrifício do consumo de coisas muitas vezes necessárias, depois de ter sido ganho com
extrema dificuldade.
Se você é do tipo de pessoa para qual foi escrito este livro, não pode sequer pensar em perder esse dinheiro valorizado pelo trabalho.
Você precisa ir à Bolsa para ganhar; não deverá entrar quando nela houver a menor possibilidade de perder.
Este livro foi escrito como um alerta, para que você, leitor, evite perigos em épocas de boom , quando
as ações perdem a capacidade de remuneração por causa das altas cotações.
Sem remuneração adequada, que guarde proporção com os preços, não tem nenhum sentido comprar ações.
Mas mesmo quando os preços sobem muito, há papéis que ficam esquecidos. Você foi instruído para procurá-los.
Você deve ter sempre em mente que:
• Um papel nunca é caro nem inviável quando subiu demais, se apesar de grandes altas continua pagando dividendos compatíveis com os novos preços.
• O papel só é caro e inviável quando deixa de remunerar os acionistas com dividendos compatíveis com o preço.
Você ficou também avisado de que não deve guiar-se por falsos profetas do Mercado.
Nem deve deixar a terceiros a administração dos seus bens. Ao contrário, foi estimulado a procurar o seu próprio caminho. Se errar, deve responsabilizar-se a si próprio pelo erro.
Você não deve entrar no Mercado só porque todo mundo está entrando. O ideal seria que você entrasse quando o Mercado estivesse normal, sem gente demais nem de menos.Você sempre deve investir o dinheiro que tiver disponível e que não faça falta. E deixar o barco correr.
Com o passar do tempo, você verá muitas baixas e muitas altas. Verá também booms estonteantes e crashes arrasadores. Para o Investidor, um crash é esperança de novo dia; para o Especulador, pode ser a sentença final.
É preciso que você se conscientize de que booms e crashes se revezam continuamente, para ficar alerta e evitar as armadilhas que em ambos ocorrem.
Há gritante falta de papéis nas Bolsas, dos quais os melhores foram em grande parte absorvidos pelos
Investidores Institucionais.
A situação está agora agravada pela vinda do capital estrangeiro arrivista, predador como é notório, e
que não considera valores intrínsecos.
Os estrangeiros promovem a alta dos papéis que já são populares, que têm, portanto, liquidez e cujos preços possam ser puxados sem dificuldade. Até as próprias fundações norte-americana estão trazendo hot money para cá.
Como são portadores de milhões de dólares, sã o recebidos com afagos e festas.Já vi isso anterior me nte, na época do falso milagre econômico de 1971, quando eles provocaram um boom especulativo que envolveu toda a nossa sociedade e paralisou o País durante dois anos, fora os seis meses em que vivemos como num manicômio.
Os dólares do capitalismo amoral não estão vindo para criar empresas e aumentar a produção, e,portanto, para ajudar o nosso desenvolvimento. Depois de feita sua incursão, os capitalistas externos costumam ir embora sem olhar para trás.
Um amigo meu, que é diretor de corretora, tem ligações com Especuladores do exterior. Vejamos o que ele me disse em janeiro de 1992:
– Dias atrás recebi um telefonema de Miami, de um Especulador que já aplicou aqui em 1971,quando começou o boom. Naquela época, ele mandou-me um milhão de dólares para comprarmos ações de siderúrgicas. Sua remessa de agora foi de cinco milhões de dólares, para comprar de ações de empresas de telecomunicações e semelhantes.Encarregou-nos de informá-lo, toda sexta-feira , após o fechamento da Bolsa, do andamento dos negócios da semana. Sabe para quê? Ele queria montar a sua estratégia para saber a hora de sair.
Esse Especulador é veterano em aplicações no exterior. Na década de 60, aplicou no Canadá, participando da onda que se fazia nos EUA em favor do Mercado canadense, onde as ações estavam“baratíssimas”, a menos de 1 dólar. Na década seguinte, levou seu capital para o Japão. No começo da década de 80, já estava na Austrália, aproveitando nova onda, a de ações de mineradoras.
Em todo os investimentos que fez no exterior, nunca deixou de triplicar o capital investido.Há centenas de Investidores estrangeiros como esse – não importa a raça, a religião ou a situação geográfica –, que só fazem incursões predatórias.
Normalmente, eles se mancomunam com o capital local – na verdade, também apátrida. Os japoneses,por exemplo, aliaram-se a corretoras norte-americanas para devastar o Mercado dos Estados Unidos.Entraram lá em 1984, em três anos elevaram os preços em altas contínuas, ganharam fortunas incalculáveis, depenaram os Investidores norte-americanos e depois se retiraram em 1987, quando o poço estava seco e dele não havia mais nada que tirar.
Se o capital apátrida internacional arrasou o centenário Mercado norte-americano, alguém duvida de que eles farão a mesma coisa conosco? Para o tamanho das garras deles, seremos presa fácil.No momento em que escrevo (maio de 1992), estão operando no País diversas grandes corretoras japonesas e norte-americanas, dessas que atuam em todas as partes do mundo e que contam com a cumplicidade de grandes banqueiros locais. Até o final de 1991, não havia nenhuma.Para o governo, parece ótimo negócio que elas tragam dólares num momento em que as divisas cambiais escasseiam. Não há, porém, ninguém no governo que seja capaz de imaginar o que irá acontecer conosco quando esses dólares baterem asas na alegre viagem de volta, depois que os capitalistas estiverem satisfeitos com as fortunas que terão sugado de nós.
Um amigo meu, dono de conceituada empresa de consultoria, foi contratado por um grupo estrangeiro para passar-lhe informações completas sobre as 50 empresas mais importantes e populares da nossa
Bolsa. É ele que diz:
– Pela maneira como eles fizeram a solicitação, percebi que nenhuma das ações das empresas pretendidas para compra justificava, pelo desempenho em suas atividades sociais,o interesse internacional. Mas eram ações que ofereciam alto potencial para manipulações na Bolsa. Pois é para isso que os estrangeiros estão vindo.Vi anúncio publicado recentemente em Nova York, em que a corretora Salomon Brothers, radicada nos Estados Unidos, mas apátrida, conclamava os aplicadores norte-americanos a aplicar nas Bolsas brasileiras.
https://moneytimes.com.br/franklin-templeton-ve-maior-interesse-estrangeiro-por-investimento-no-brasil/
O anuncio alegava, entre outras coisas, que a economia brasileira estava se recuperando e que aqui as
ações estão muito baratas, oferecendo amplas oportunidades de rápido e fácil enriquecimento.Com alegações mentirosas, eles estão repetindo o mesmo esquema que dá sempre certo.Há duas mentiras nesse anúncio. Nossa economia enfrenta problemas insuperáveis e está a anos-luz da recuperação. Por sua vez, as ações já estão caras demais, se comparados os preços com os rendimentos.É verdade que a maioria das nossas ações está abaixo de 10 centavos de dólar. São ações cujas similares no exterior alcançam dezenas de dólares.Mas não é pelos preços que vamos compará-las. A comparação pelos preços é desonesta.
A inflação brasileira obrigou as empresas a fazer grandes desdobramentos dos seus papéis, de modo que, enquanto no exterior se negociam ações de uma companhia por pequenos múltiplos de mil, aqui as vendas chegam à casa de milhões.
Pulverizados os papéis, é natural que também se pulverizassem as cotações na mesma proporção.Os preços são efetivamente baixos se examinados à luz de sua expressão numérica, mas o fato indiscutível é que nossas empresas não pagam remuneração que os justifique. Ou, dizendo com maior clareza, mesmo baixos, os preços estão excessivamente altos, se comparados com a miséria dos
dividendos que a grande maioria das empresas brasileiras paga aos seus acionistas.
É, portanto, deslealdade exibir números de fora para pautar os nossos preços aqui. São mundos e valores diferentes.Você, leitor, está lembrado da minha informação de que, em abril de 1981, entre 429 empresas registradas na Bolsa para negociação dos seus papéis, pré-qualificamos 50 ações.As 50 ações pré-qualificadas apresentavam cash-yield igual ou superior a 6% da sua cotação na Bolsa, índice básico de remuneração que é aceitável para qualquer ativo financeiro em todo o mundo.Em abril de 1992, onze anos depois, estavam listadas na Bolsa 569 companhias, das quais não mais que 23 desfrutavam de liquidez diária. Dessas, só três restariam, com recomendação de compra para colocação em carteira.
O que está acontecendo? É que as ações que se possam considerar Investimento estão minguando no Mercado. Por falta de variedades que facilitem a escolha, a única alternativa que resta é jogar, como fazem quase todos os que comparecem à Bolsa no dia a dia.
Falta muito pouco para a Bolsa transformar-se naquele cassino que todo mundo pensava que fosse e que os profissionais esperam que seja.O investimento em Bolsa está se tornando inviável pelos seguintes motivos:
http://www.multpl.com/s-p-500-dividend-yield/
1) A maior parte das poucas empresas que se registraram na última década não respeita os acionistas minoritários, juntando-se às outras mais antigas que também nunca os respeitaram.
2) O sistema Cats marginalizou 97% das empresas da Bolsa.
3) Não há renovação de empresas na Bolsa. Todavia, há em todo o País mais de 5 mil empresas com altíssimo potencial de rentabilidade que estão fora da Bolsa.
4) Os bons papéis estão caros demais em relação à remuneração que pagam.
5) Dinheiro em quantidade cada vez mais crescente, dos institucionais e dos Manipuladores do País e de fora, eleva os preços a níveis tão altos que tornam impossível a remuneração.
http://www.fundamentus.com.br/resultado.php
6) Uma vez que foi desviada dos aplicadores a noção de remuneração, as empresas não se empenham em pagar aos seus acionistas melhores dividendos, porque sabem que os portadores dos seus papéis têm o julgamento obscurecido pela valorização na Bolsa.
